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22 de Fevereiro de 2018

Sobre a crítica pela arte e a moralidade cristã

Wagner Francesco ⚖, Estudante de Direito
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 4 meses

Certa feita Nietzsche escreveu: “não existem fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral dos fenômenos”. E não é que ele está certo?

Por longos séculos a moral cristã interferiu no andamento da sociedade. Nem sempre foi de tudo ruim, para que não sejamos injustos, mas é fato: dependêssemos da moral cristã, a mulher ainda seria submissa ao homem (Efésios 5:24).

É claro que os membros do MBL não são moralistas cristãos: não são nada, senão (dizem eles que são) liberais oportunistas pegando carona em onda conservadora para se promover. Mas os moralistas cristãos existem e são perigosos.

Moralistas não suportam críticas, porque críticas tiram os valores morais do centro confortável. E esse é o papel da crítica: sacudir a árvore das ideias para fazer as ideias podres caírem no chão.

É pela crítica que se revela que as coisas postas foram, na verdade, impostas.

Necessitamos de críticas vibrantes. Como dizia Nietzsche em seu livro “A genealogia da moral”, § 6º:

“Necessitamos de uma crítica dos valores morais; o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão – por isso é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram esses valores, sob as quais circunstâncias se desenvolveram e modificaram.”

É pela crítica que conhecemos por que as coisas são o que são e por que ainda são se já deviam ter deixado de ser.

No ocidente o cristianismo é o rei da moral, mas isso porque a moral é o instrumento por excelência da dominação religiosa. Sem a moral, sem a criação do bem e do mal, a religião não se sustentaria por dois verões. Se amanhã fosse anunciado que as portas do inferno foram fechadas, no mesmo dia as portas dos templos começariam a fechar também.

É o medo, o senhor da moral, quem sustenta tudo isso. É por isso que todo discurso moral vem acompanhado de “Deus falou que não é bom”. É o medo da intolerância de Deus que mantêm os moralistas em pé. E aí a crítica pergunta, tal como a serpente no Jardim do Éden: “Deus falou mesmo que não?”. Essa pergunta estremece qualquer moralista.

Os valores precisam ser criticados – até mesmo para testar a validade desses valores. E a arte? A arte, como a senhora da crítica, deve estar livre das amarras dos valores morais. Como criticar valores morais se presos a eles? É sinal de fraqueza um artista se ocupar demais com a moral de sua arte. Os artistas são espíritos livres! Nada soa mais perigoso ao moralista do que a palavra liberdade.

Contra os espíritos livres, eis o projeto de lei 8.854/2017, do deputado Givaldo Carimbão – um moralista do PHS de Alagoas. O projeto altera o art. 208 do Código Penal e a Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, para aumentar a pena e tornar hediondo o crime de desrespeito à crenças e símbolos religiosos.

Segundo a justificativa do projeto, que quer tornar a crítica um crime hediondo, onde a pena mínima será de 12 a 30 anos:

Esses (críticos) não são artistas, são criminosos que merecem ser punidos como tais. Criminosos que pretendem acabar com a família e os valores cristãos. Uma vez cometido crime hediondo, o criminoso que praticar não tem direito a fiança, permanecem obrigatoriamente em regime fechado.

Família. Valores cristãos. Transformaram um modelo de família e determinados valores em bens juridicamente relevantes para o direito penal. Querem criminalizar a crítica com medo da crítica. Compreendo: família e valores cristãos são apenas ídolos que não se sustentam diante da crítica – o martelo de destruir ídolos.

É preciso prestar atenção ao que escreveu o geógrafo David Harvey:

É espantoso com que frequência a propriedade, a religião, a família e a sociedade são repetidas como um mantra ideológico para proteger a ordem burguesa estabelecida.

O direito penal surge, novamente, para defender valores determinados por quem determina os tipos penais que formarão o conjunto de bens jurídicos mais relevantes para determinado grupo social. Como Marx já alertou:

As ideias que dominam uma época são as ideias da classe que domina a época.

O direito penal contra a liberdade de expressão – e da crítica. A severidade da pena como instrumento de coação contra os espíritos livres. Já dizia Marx no livro “Os despossuídos, p. 82, que “é um fato tão histórico quanto racional que a severidade indiscriminada da pena anula o êxito da pena, pois anulou a pena enquanto êxito do direito”. E dizia ainda mais Marx, desta feita na página 92, que “a crueldade é o caráter das leis ditadas pela covardia, pois a covardia só consegue ser enérgica sendo cruel”.

Os moralistas são hipócritas e são cruéis. Já sabemos, há muito tempo, que o lado mais sórdido da religião é quando o discurso piedoso camufla a sordidez do caráter. Todo moralista é sórdido, apesar do discurso piedoso de “valores morais”.

O cristianismo sofreu com a moral Romana, quando os cristãos eram obrigados a adorar o imperador sob pena de morte caso não obedecessem. Não iremos, hoje, sofrer com os moralistas cristãos. A crítica é essencial numa democracia – e se os “valores morais” não se sustentam diante da crítica, pior para os “valores morais”.

A crítica não se deixa aprisionar. Não é típico do crítico se preocupar se tem apoiou ou não. É imposição de ideias e a coragem de defende-las até o fim. Quem teme a crítica é porque sabe que está lucrando sentado num ídolo dos frágeis pés de barro.

48 Comentários

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Prezado amigo,
Devemos separar aquilo que é crítica daquilo que é meramente ofensa. Crítica é algo que se constrói com base em argumentos, se solidifica com a sensibilidade de não ser dono da verdade. Criticar é algo desejável, contudo, ofender, ou ofender por meio da ridicularização, não se trata de crítica, é apenas a expressão da agressão. Temos diversas religiões, não apenas o cristianismo, que, por um contexto histórico, colocam a mulher em posição desimportante. Podemos acompanhar isto na Tora, Alcorão, Vedas...
Mas, também temos este tipo de conceituação de inferioridade em ensaios "críticos" de filósofos. Já que citou Nietzsche, devemos lembrar que ele próprio possui frases muito famosas de explícito machismo: "A mulher tem tantas razões para ficar envergonhada! Há tanto pedantismo na mulher, tanta superficialidade, doutrinarismo, presunção mesquinha, pequenez desenfreada e imodesta! Preste atenção no seu convívio com crianças! Até agora, só o medo ao homem refreou e reprimiu essas fraquezas." trecho de "Para Além do Bem e do Mal, aforismo 232". Entre outras pérolas da misoginia.
Veja a certa diferença entre a parte bíblica que o senhor colocou (mais completa, dentro do contexto) e a idealização de Nietzsche sobre as mulheres. No Efésios, a continuação daquilo que o senhor citou está os versículos 25, 33 e 28, destaco o último: "Assim devem os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo."
Deixo então a minha crítica, eis que crítica não é ofensa, é argumentação. Tenho Nietzsche como filósofo importante, acho muito importante a contribuição argumentativa dele, contudo, ainda humano e cheio de preconceitos. Tenho na Bíblia lições excepcionais, acho uma importante contribuição para o pensamento de forma mais fraterna e em comunhão com o divino (assim como outros textos sagrados de diversas religiões). Contudo, ainda escrito por humanos. Daquilo que acredito se tratar de expressão da temporaneidade, tanto nos escritos dos filósofos, quanto nos escritos dos sagrados das religiões, eu tento retirar da base de aprendizado, e coloco na base do humano errando como sempre fizemos e faremos.
Como mulher, e como ser humano, tento aprender com que é universal e perene, rechaço aquilo que é temporal. Por último, acredito que mesmo aquele que se diz filósofo, critico, religioso e artista tem o poder de ofender severamente, mulheres, pessoas, crenças, culturas. Aquele que se julga acima do bem e do mal, possui apenas a soberba (Até porque "bem" e "mal" são expressões da filosofia e da ética, não apenas religiosas). Não consegue enxergar o outro e ofende, castiga, maltrata. Isto é errado para TODOS nas mais diversas expressões de nossas intelectualidades. Na minha opinião, NÃO existem espíritos livres, todos somos humanos com severos preconceitos, todos nós temos a nossa "moralidade".

Quando atacamos uma religião como um todo, atacamos os "falsos profetas" que disseminam o ódio, mas também atacamos as pessoas de boa vontade que espalham generosidade e amor. E isto está longe de fazer bem a sociedade. Que sejamos justos em nossas críticas e não sejamos apenas agressores. Não há razões argumentativas para vilipendiar, por exemplo, a imagem de Maria, de Jesus, de Maomé, de Davi, de Buda, de Iemanjá. Podemos criticar sem ofender, isto seria o mais racional e criticamente justo. continuar lendo

Muito bem colocado, Eunice. Parabéns! continuar lendo

Parabéns, pelo argumento coerente! continuar lendo

Eunice, me adota?? continuar lendo

Muito bom! Excelente explanação. Mais ponderada que o artigo escrito, numa visão equilibrada de ponto de vista.

Me parece que a visão do autor está eivada de certo rancor ou trauma com alguma religião. É visível a falta de ponderação dos lados da moeda, unilateralidade. continuar lendo

Parabéns Eunice! continuar lendo

Cara Eunice, parabéns por sua lucidez e coerência. Sua resposta foi de fato contundente sem deixar de ser elegante. O autor do artigo deixa muito claro ser uma pessoa raivosa e reacionária, como também incapaz de lidar com a crítica que ele diz defender. É engraçado falar de Marx como sendo um herói da coerência, quando na verdade não passou de um farsário sórdido cujos pensamentos sustentaram e continuam sustentando tantas ditaduras intolerantes à crítica e cruéis contra seus opositores. As palavras desse Wagner não passam de delírio, revelando na verdade sua dificuldade em lidar com a critica, principalmente religiosa. A religião cristã tem sido a base da sociedade ocidental, sendo fundamental para a compreensão e promoção dos diretos humanos. Veja o que está acontecendo na Europa! Enquanto o cristianismo foi a base daquela sociedade houve florescimento nas mais diversas áreas. No entanto, trocaram o cristianismo por um substituto barato e agora convivem com o caos sem saber o que fazer. Se quiserem trocar o cristianismo que o façam por algo melhor, mas a má noticia é que até hoje não encontraram nada melhor que o cristianismo e seus valores éticos e morais. O Wagner ainda tem a pachorra de falar contra a família, se referindo a mesma com tanta repugnância...O que ele não consegue enxergar através de seus olhos comunistas é que a família como a conhecemos, em seus moldes tradicionais, é a base da sociedade, ou como diria José Afonso da Silva, em uníssono com outros eruditos do direito constitucional, "a família é a célula mater da sociedade". Se vai bem com a família, vai bem com a sociedade, sendo a recíproca verdadeira. Todos sabemos que esse ataque à religião e a família tradicional não passa de uma questão ideológica pregada por Marx, o qual dizia que a família tradicional é um dos mais primitivos redutos de exploração do ser humano e a base da propriedade privada. Razão pela qual, segundo Marx, a família deveria ser destruída. Esse cara na verdade deveria se mudar para Cuba ou para a Venezuela ou quem sabe para a Coreia do Norte, países com ideais marxistas! E quanto à arte...tem gente defecando em folha de papel e dizendo que isso é arte. Paciência, fazer o que, né? Pedofilia não é arte, é crime!!! Arte que é arte deveria expressar o que é bom, belo e ordeiro, revelando a engenhosidade de um espírito elevado e não o que há de mais vil no ser humano. Há muito bandidos que qualificam suas atrocidades como verdadeiras obras de arte, que Jack o estripador o diga!!! continuar lendo

Caríssima! Parabéns e minha admiração pela síntese - resposta ao articulista que me pareceu inadequado e sem "feeling" em algumas de suas colocações, refutadas com fino trato por você. Provoco, no sentido do diálogo "socrático" o articulista, fundamentado em algumas de suas postagens anteriores oportunas e de conteúdo. continuar lendo

Excepcional argumento Eunice. Já há algum tempo eu deixei de ler os artigos desse cidadão, por entendê-los ultrapassar os limites do exagero (acredito que ele deve ter algum problema de existencialismo). Parabenizo, mais uma vez, seus argumentos, eis que recheados de conhecimentos e juízos virtuosos, justamente o que falta para o Sr. Wagner Franscesco, que, no meu sentir, demonstra, inclusive, ser um ateu comunista! continuar lendo

Excelente comentário, ponderado, coerente. Muito diferente da "crítica" do autor do artigo, que revela certo desequilíbrio, rancor. Sem querer ofendê-lo, crítica é uma coisa, OFENSA gratuita é outra. A tolerância é um valor muito caro a nossa sociedade, o respeito deve ser uma via de mão dupla que concilia TOLERÂNCIA e MODERAÇÃO. Não precisamos ser mornos, ou deixar de ter nossas próprias opiniões, nem medo de expressar o que pensamos, mas partir para ofensa, agredir o que as pessoas creem sem qualquer razão me parece o oposto de civilidade, uma atitude vil, que de uma forma ou de outra SEMPRE será reprimida, porque liberdade não é o direito de fazer qualquer coisa de forma ilimitada, fosse assim não teríamos de parar nos semáforos quando o sinal está vermelho.... continuar lendo

E o crítico tem moral? Um cavalo bravo sem freio pode se machucar na sua disparada louca ; um automóvel sem freio pode custar a vida do seu condutor ; um trem sem freio pode custar a vida do maquinista e dos passageiros ; a falta de controle de vôo de qualquer aeronave pode custar a vida do piloto, dos tripulantes e dos passageiros. Enfim, a falta da moral gera uma hecatombe na sociedade e a miséria do homem.
A moral, meu amigo, é um controle, um moderador do ímpeto e das idéias do homem. Sem moral não há ser humano, mas um mero bicho, um ser irracional. continuar lendo

Parabéns pela reflexão!
Contudo, data máxima vênia, vislumbro algumas incorreções.
A primeira delas gravita em torno da seguinte assertiva: "moralistas não suportam críticas, porque críticas tiram os valores morais do centro confortável. E esse é o papel da crítica: sacudir a árvore das ideias para fazer as ideias podres caírem no chão".
Ora, diferentemente da concepção empregada pelo brilhante subscritor do texto comentado, moralista é aquele se fundamenta suas ações e posturas num conjunto de valores de ordem moral. Não devendo se confundir os conceitos de "moralista" e de "antidemocrático".
Por seu turno, questiona-se a seguinte declaração: "Os valores precisam ser criticados – até mesmo para testar a validade desses valores. E a arte? A arte, como a senhora da crítica, deve estar livre das amarras dos valores morais. Como criticar valores morais se presos a eles? É sinal de fraqueza um artista se ocupar demais com a moral de sua arte. Os artistas são espíritos livres! Nada soa mais perigoso ao moralista do que a palavra liberdade."
O conceito de arte é polissêmico. Deste modo, toda generalização, com devido respeito ao posicionamento do autor, é inválida.
Por fim, é nítido mediante uma simples leitura do texto, o senso valorativo sob o qual foi escrito, o que ocasiona uma contradição, haja vista a intenção do mesmo seja de rechaçar criticamente a prevalência de valores morais, quando, por contexto, deveriam prevalecer outros. continuar lendo

Parece que o autor estudou teologia mas não conhece o Deus da teologia. Jesus ensinou sempre sobre o Amor e foi um dos maiores críticos da religião hipócrita, não devemos generalizar, a sua crítica e ofensiva eivada de ressentimentos de uma pessoa que nunca conheceu o fundamento do Cristianismo.E lamentável que um teólogo que estudou tanto perdeu todo o tempo, pois não aprendeu o significado de compaixão, misericórdia, empatia, enfim o Amor. Como disse JESUS "Pai perdoai porque eles não sabem o que fazem" continuar lendo