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19 de Agosto de 2022

Afinal de contas: nossos concursos medem a aptidão para o cargo?

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 5 anos

Afinal de contas nossos concursos medem a aptido ao cargo

Ontem (02/04) eu passei por uma experiência ruim: perdi na prova da OAB. Depois de muito tempo estudando e perdendo noite, na hora do "vamos ver", em menos de duas horas de prova eu já estava nervoso e desconcentrado - ao final, questões que eu tinha marcado certo no caderno eu passei errado para o gabarito. Minhas suspeitas estavam corretas: a prova mede mais a resistência psicológica que o conhecimento. Mas sem ficar na minha lamúria, porque lugar de chorar é com a cara nos livros, sigamos para a grande questão dessa nossa reflexão hoje.

Afinal de contas, nossos concursos medem a aptidão do sujeito para o cargo?

Muita gente se dedicou para estudar pra o concurso do Ministério Público de Minas Gerais, que também aconteceu ontem (02/04) e, depois de gastar muitas horas, muito dinheiro, estudando pra o concurso se depara com uma questão sobre "A teoria da Graxa". Eu fui pesquisar e pasmem: a teoria contrária a Teoria da Graxa se chama "Teoria da Bola de Neve".

Duas teorias para explicar a corrupção:

A teoria da Graxa diz que existem corrupções boas, que são aquelas que ajudam o sistema a se movimentar - pense, por exemplo, em obras públicas que são feitas por mero interesse político. Assim, todo aquele político que "rouba, mas faz", é adepto da Teoria da Graxa.

A Teoria da Bola de Neve, por seu turno, propõe que qualquer ato de corrupção, em qualquer grau e por qualquer motivo, atrai mais corrupção. Corrupção é corrupção e acabou a conversa.

A questão é: vamos falar sério? Uma questão dessa avalia a aptidão de alguém para o cargo? A gente tá querendo membros do MP que saibam essas viagens teóricas aí? Aí pessoa senta numa cadeira, por 5 horas, vendo só papel branco e letra preta, com questões enormes, cheias de pegadinhas e, não bastasse isso, ainda se depara com uma questão dessa...

Lênio Streck é um contumaz crítico do modelo que temos de concurso. Segundo ele, temos um

[...] círculo vicioso e não virtuoso. Os concursos repetem o que se diz nos cursinhos, um conjunto de professores produz obras que são indicadas/utilizadas nos cursos de preparação, que por sua vez servem de guia para elaborar as questões que são feitas por aqueles que são responsáveis pela elaboração das provas (terceirizados — indústria que movimenta bilhões e os próprios órgãos da administração pública).

E afirma mais

por ter se tornado um “fim em si mesmo”, o atual modelo de prova acabou por criar concursos que selecionam “pessoas que têm mais aptidão para fazer prova de concurso” em detrimento de pessoas com aptidões reais para o desempenho da função.

E pois é! E não estou propondo o fim das provas objetivas. De modo algum. A proposta é que seja mais inteligente, e não, como denuncia ainda o Lênio Streck, "um quiz show, um conjunto de pegadinhas para responder coisas que só assumem relevância porque são ditas pelos professores de cursos de preparação para ingresso nas diferentes carreiras do serviço público".

Precisamos repensar como as provas estão sendo aplicadas, quem está lucrando com essa indústria de (reprovação em) Concursos Públicos e o quanto tudo isso é ruim para o país e para o Serviço Público.

E quanto a mim, resta estudar mais um pouco e aprender a se concentrar, porque conhecimento na prova da OAB é 40%, o resto é preparo psicológico. Quem for um bom respondedor de provas passa de olho fechado - o problema é que olhos fechados não fazem bons advogados.

Mas como dizia Machado de Assis: aos vencedores, as batatas. Parabéns a todos os aprovados na primeira fase da OAB e no Concurso do MP.

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61 Comentários

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Concordo Wagner. o modelo dos concursos da atualidade visa somente a arrecadação de inscrições.
Infelizmente, não temos outra opção que não seja enfrentar essa confusão.
Uma boa solução é resolver o maior número de questões que conseguir.
Um abraço e boa sorte no próximo exame. continuar lendo

Obrigado pelas palavras de incentivo, Carlos! Vamos pra frente!
Desejo uma vida de muita paz e sucesso pra você. Forte abraço. continuar lendo

Se voce fica nervoso com a prova, que não morde, imagina na frente do Juiz, contra outro colega muito mais preparado que você.. continuar lendo

O contrário é visto diariamente: gente que arrebenta nas provas, mas se treme numa audiência. São grandezas distintas; e como toda grandeza distinta, não pode ser comparada. É por isso que, por exemplo, tem gente que se sente à vontade fazendo prova na faculdade, mas morre de agonia apresentando seminários pra os colegas. O nervoso ao fazer uma prova não é o sinônimo de medo, mas é estresse por estar fazendo uma coisa inútil. continuar lendo

Em uma primeira análise pode parecer que os concursos hoje avaliam mais a capacidade de fazer as provas do que a efetiva capacidade profissional, porém, o bom profissional é aquele que entende as exigências do desafio que tem pela frente, se prepara de modo adequado e supera.
Concordo que o sistema de concursos públicos pode ser aperfeiçoado, como tudo na vida, pois nada é perfeito, mas nessa seara, há de se ter muito cuidado com métodos que possam colocar muita subjetividade para aprovação.
Com todo o respeito ao autor do artigo, me parece que o propósito é criticar o modelo de concurso por não conseguir supera-lo, mas entendo a sua frustração, acho que todos aqueles que um dia enfrentaram a preparação para concursos, o que inclui a prova do OAB, já sofreram esse dissabor. continuar lendo

Eu penso que prova, seja em que modalidade for não prova muita coisa, a não ser o psicológico mesmo. O fato de uma pessoa não ser aprovado não quer dizer que ele não saiba. Aí conta o estado emocional, falta de atenção, a própria elaboração da prova com suas armadilhas, enfim. Talvez uma prova prática, em uma situação real, fosse mais eficiente. Há excelentes profissionais que são derrubados em provas. continuar lendo

Concordo plenamente. As provas de hoje em dia não avaliam seu conhecimento profissional, mas sua capacidade de decorar teorias absurdas que não têm utilidade na vida prática. continuar lendo

Ótima reflexão! Compartilho um artigo postado aqui nessa mesma linha:

https://evinistalon.jusbrasil.com.br/artigos/433360389/o-direito-os-concursosea-lanchonete-que-fechou

Na prática: admite-se profissionais em concursos e provas, não necessariamente os capacitados para o cargo, dentre outras competências necessárias.

Resultado: máquina ineficiente com resultados aquém do que necessita a população. Qualidade e satisfação dos "clientes", nem preciso comentar...

Engraçada a visão curta de alguns em imaginar que a preparação e capacitação, se resume a 5 horas ou mais sentado, fazendo uma prova.

Não sou contra concursos e provas, muito pelo contrário, mas esse modelinho atual interessa mais a "menos" do que deveriam servir os resultados a "mais". continuar lendo