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29 de Junho de 2022

O Nubank pode fechar as portas. É o mercado selvagem

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 6 anos

O Nubank pode fechar as portas o mercado selvagem

Li que um dos emissores de cartão de crédito que mais crescem no País, o Nubank, ameaça fechar as portas se o Banco Central confirmar, nesta terça-feira, 20, uma mudança drástica no prazo de pagamento das vendas aos lojistas.

Reduzir de 30 para 2 dias o prazo para ser repassado o valor da compra para o comerciante, como vem sendo ventilado em Brasília, vai representar o fim do negócio do Nubank.

A questão é: a justificativa do Temer, de impulsionar o comércio, é válida ou não?

Importa dizer, logo de início, que o Brasil é um dos países cujo prazo para o repasse é um dos maiores do mundo. Nos Estados Unidos e em muitos países da Europa, por exemplo França, o prazo para o repasse do valor da compra é de 02 (dois) dias, como quer o Michel Temer e muitos varejistas em nosso país. Na argentina, o prazo é de 07 (sete) dias. No Brasil, 30 (trinta) dias. Para o governo, o encurtamento do processo vai favorecer o varejista e contribuir para o aquecimento dos caixas.

O problema, segundo o Nubank, é que a mudança trará um custo adicional para todos os emissores de cartões de crédito, do Nubank aos bancos maiores, que dominam o mercado. A diferença é que o Nubank e os emissores menores não têm a mesma capacidade de financiamento de gigantes como Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.

O Nubank pode fechar as portas o mercado selvagem

Se o Nubank não tem a mesma capacidade de financiamento, a pergunta que gigantes como Itaú e Bradesco fazem é: e eu com isso? Mercado é Darwiniano e vence o mais forte. Aliás, escreveu o István Mészáros no livro "Para além do capital", p. 17:

Não se pode pensar em outro sistema de controle maior e inexorável – e nesse sentido “totalitário” – que o sistema de capital globalmente dominante, que impõe “seu critério de viabilidade em tudo, desde as menores unidades de seu ‘microcosmo’ até as maiores empresas transnacionais, desde as mais íntimas relações pessoais até os mais complexos processos de tomada de decisões nos consórcios monopólicos industriais, favorecendo sempre o mais forte contra o mais fraco.

Se esta mudança acontecer vai favorecer os varejistas, mas vai prejudicar o comprador que não terá mais parcelamentos sem juros - que diga-se de passagem é algo que só tem no Brasil. Vai acabar com algo genial como o Nubank, que presta um excelente serviço e vem crescendo cada dia mais. Mas é a vida, não é? Não basta só a meritocracia, só ser bom para crescer neste país, mas é preciso ser "amigo" do Estado, pra contar com o poder de uma "canetada" que altere regras e favoreça o grande, demolindo o pequeno.

Uma pena que o mercado seja assim: quer livre comércio, mas quando o bicho pega - como após a crise de 2008 - corre pra pedir ajuda do Estado. Quer competição, mas vive fazendo monopólio - e quando está perdendo espaço, corre pra o Estado regular o mercado e favorecer quem tem mais dinheiro - porque o Estado, já dizia Marx, "é um comitê instituído para gerenciar os interesses da burguesia".

O mercado imita a vida sofrida de milhões de pessoas que não contam com a ajuda de uma tal "mão invisível"... Mas já que adoramos copiar tudo o que os Estados Unidos fazem, se lá o prazo é de 02 (dois) dias, de repente aqui vai dar certo - o que eu duvido.

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37 Comentários

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O problema do Brasil é adotar as regras dos EUA com a cultura brasileira... não tem como dar certo continuar lendo

Exatamente! A galera quer copiar o modelo de um país com pleno (pero no mucho) emprego, com mercado forte, com economia forte e colar num país quebrado como o nosso. Agora, para os lojistas essa mudança é excelente - e temos mais lojistas que instituições como o Nubank, então... continuar lendo

Concordo em parte. Nesse e em outros casos, porém, entendo que a medida é salutar e o fato de ser adotada nos EUA (e tantos outros países) não pode ser usado como contraponto.
Isso significaria dizer que essa folga às administradoras pode e deve ser concedida em nosso país, independentemente da situação econômica, já que não é de hoje tal prática.
É evidente que a ajuda tira da administradora do cartão e entrega ao empresário. continuar lendo

Na verdade, a culpa é justamente da regulação estatal. Se as pessoas tivessem liberdade para emprestar o próprio dinheiro a juros os bancos não teriam tanta força. continuar lendo

Mas toda regulação estatal só beneficia quem tem mais poder. Você acha que o Itaú e o Bradesco não colocoram a mão na caneta do Michel Temer? A questão é que "a liberdade" é uma ilusão em qualquer sociedade, pois até nas micro-relações exige-se o mínimo de regulação e norma, para evitar o caos. Mas ainda que eu concorde com você que se a gente pudesse emprestar o próprio dinheiro a juros os bancos não teriam tanta força, a questão é que vivemos num Estado Financeiro e nenhum dono do capital financeiro iria deixar que fôssemos livres para, sobretudo, enfraquecê-los.

Vida sem regulação - e quem regula é dono do capital, seja cultural, financeiro, religioso - só funciona nos livros do Milton Friedman - ou nos do Marx, que acreditava numa sociedade mitológica de seres de boa-fé uns para com os outros. continuar lendo

Hyago, a usura só não é crime quando é cometida em bando.
Agora o estado tem que impor sua presença, sim, organizando em coibindo abusos.
Mas, também não dá certo.
Quando aquele que tem que coibir o abuso é financiado pelo abusador, fica como estamos. continuar lendo

Wagner Francesco.

Creio que você não conhece Friedman, o que creio ser provável ja que grande parte da obra dele é de caráter técnico e portanto com um pesado conteúdo matemático e economico não muito acessível a profissionais de outras áreas que não a economia.
Mas mesmo na literatura dele mais acessível à leigos, Friedman não era um libertário. Ser partidário do Estado Mínimo não é a mesma coisa que ser partidário de Estado Zero.
Talvez você se surpreenda em saber, que ao contrário de seus preconceitos, Friedman é o inventor da idéia do Imposto de Renda Negativo, ou como é mais conhecida popularmente, Programas de Renda Mínima.
Por favor, não confunda liberais com esses libertários que andam por aí. continuar lendo

O Estado sempre atrapalhando a vida do cidadão. continuar lendo

Já que querem copiar o que se faz nos Estados Unidos, copiemos os juros também. continuar lendo

É justamente essa a ideia. Mas para tanto precisamos nos distanciar o máximo possível do nossos 7 default, bem como do cenário de dominância fiscal. continuar lendo

Melhor seria copiar os salários. Aqui, paga-se salário mínimo como se fosse proibido pagar mais.... continuar lendo