jusbrasil.com.br
20 de Setembro de 2019

Cursinhos para OAB, cursos para concursos e a vida de ilusões

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 3 anos

Cursinhos de OAB Cursos para concursos e a vida de iluses

Ainda estou refletindo sobre o ocorrido ontem aqui em Salvador no caso "do homem bomba". A pessoa tenta 11 vezes passar na OAB e se desespera...

Vocês acham mesmo que este é um caso isolado? Uma pessoa ameaçar explodir tudo pode ser um caso inédito, mas a gente não tem os dados do número de gente depressiva e angustiada com este exame: e isto inclui tanto a galera que está preocupada em fazer quanto a galera que já fez e perdeu.

Não é culpa do Exame se muitas (!) pessoas não passam, mas tudo isto nos chama a refletir sobre algo: a venda de esperança do mercado de concursos.

Vivemos numa sociedade que estimula o concurseiro e exalta o concursado. Tratamos como heróis uma gente que passa 10, 11, sei lá quantas horas estudando pra concurso e que tenta, tenta, tenta e segue a vida tentando entrar numa vaga que, na maioria das vezes, nem é a vocação do sujeito - é por isto que conheço muita gente se matando para tentar ser juiz, promotor ou defensor público: o que acontecer primeiro! É um absurdo! Ninguém tem vocação para estes três ao mesmo tempo!

Mas o sujeito vai tentando, porque ele vê no YouTube que não pode desistir, que tem que perseverar, que tem que lutar pelos sonhos. Aí, ele não para primeiro pra perguntar se este sonho é dele mesmo ou estão vendendo pra ele comprar...

Poderíamos parafrasear o Karl Marx e dizer que "o mercado de concursos é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, chupando o estudo vivo e que vive quanto mais estudo vivo chupa".

Bom no Brasil não é o jovem empreendedor, mas o jovem concurseiro! Que triste...

Este mercado vende esperanças - e vende livros! - e impede que um rapaz deixe de fazer coisas úteis na vida para ficar 11 vezes tentando passar numa prova - e o pior é que muita gente não sabe que o difícil não é a prova, é o mercado de trabalho!

Jovens, esta coisa de que desistir do sonho é covardia é uma mentira absurda se você nunca parou para refletir se o seu sonho é realmente fazer o que está querendo fazer.

Desculpa o realismo, mas a verdade é: mais importante que realizar um sonho é descobrir a própria vocação - e quem descobre a própria vocação poderá abrir algumas portas a mais para o sucesso: mas não é garantia!

A gente vende livros para alcançar o sucesso, mas deveríamos vender livros para enfrentar o fracasso. Recomendo, inicialmente, a leitura do filósofo Nietzsche.

Desejo aos meus amigos o sofrimento, a solidão, a enfermidade, as perseguições, o opróbrio. Desejo que conheçam o profundo menosprezo de si próprios, o tormento da sua desconfian­ça, a angústia da derrota. E não os lastimo, pois que lhes desejo a coisa única capaz de demonstrar se valem algo ou não: a resistência! (F. Nietzsche)

64 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Minha experiência no STJ foi uma das mais traumáticas possíveis. O que eu vi lá? Um ambiente cheio de interesses, vaidades, falsidades... foi pesadelo! Um cara tratou o Ministro de uma forma e quando fui pedir informação a ele, de forma cordial, parecia outra pessoa, agressivo e infeliz. Que mundo é esse? A gente vive num teatro? Vida falsa, superficial. Imagina na iniciativa privada. Tenho uma amiga advogada que me conta as histórias e fico com o cabelo em pé. O mundo humano é tão desprezível. Certa vez passei em uma escola e as crianças estavam pintando e brincando na sala de aula. Eu pensei na hora: DIGAM A VERDADE PARA ESSAS CRIANÇAS!!! continuar lendo

Concordo plenamente infelizmente percebi isso um pouco tarde. continuar lendo

...Não há nada para ser dito, aliás, nem vale a pena, ninguém quer saber deste Ministro..Espero que Jesus ilumine o seu coração.. continuar lendo

Perfeito, chega de máscaras, ou será que precisamos delas para sobreviver? continuar lendo

Com a devida vênia, mas o fato ocorrido ontem aqui em Salvador não tem relação com a "pressão" da prova da Ordem. O rapaz tem transtorno psicológico desde que entrou para a faculdade. O relato foi dado por ex-professores e ex-colegas dele. E ele tenta há 11 anos passar no Exame, foram 18 reprovações ao total. Que fique claro o que é a pressão da prova e o que é problema psíquico pré-existente no indivíduo. continuar lendo

Concordo em tudo, e complemento: o problema não é o sujeito ser refém de estudos, de tentar, tentar, tentar e não conseguir algo. O pior é o sujeito que faz isso por padrão, como se fosse uma imposição social ou da família.

Estudar por amor, por sonhos e objetivos até vai (e como vai), mas estudar por obrigação, a contra-gosto, como isso é triste... continuar lendo

É bom estar presente nos certames e acionar a Justiça quando houver irregularidades. continuar lendo

Tudo que eu observei em serviço público (e acontece na iniciativa privada também) é uma grande maioria desmotivada e os mais velhos sonhando em se aposentar para não trabalhar mais. É difícil ver alguém que goste do que está fazendo, por isso eu morro de medo de ir ao médico. O dinheiro está movendo as pessoas, mas é compreensível, pois em um mundo instável e cheio de crises, as pessoas querem algo que possam lhe trazer segurança. Afinal, se está difícil para quem tem maiores condições, imagina o pobre coitado que nem estudo teve. Vocês acham que quem trabalha nessas grandes corporações o fazem "por amor"? Mas enfim, qual o sentido em gastar 8 horas diárias ou até mais, fazendo sempre a MESMA coisa, durante o resto da vida? Viramos robôs. A rotina é tão grande que certas pessoas vivem no "automático", senão a maioria de nós. Tal estilo de vida me lembra uma prisão sem grades. continuar lendo

Creio que isto posto vem principalmente do tolhimento das liberdades de empreender e supervalorização do estado como player do mercado e gerador de demandas burocráticas. continuar lendo