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16 de Dezembro de 2018

A música como meio de perpetuar violência

Quando coisas violentas são mascaradas pelo manto da ingenuidade.

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 3 anos

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum. (Roland Barthes)

A música é uma arte antiga usada, especialmente, para expressar sentimentos. De suma importância para a humanidade, Nietzsche dizia que “sem a música a vida seria um erro” ou que “não podemos acreditar em um deus que não saiba dançar”. Não é por acaso que hoje existe a musicoterapia e, segundo especialistas nesta área, tal terapia emprega instrumentos musicais, canto e ruídos para tratar pessoas com distúrbios da fala e da audição ou deficiência mental. Atua, também, na área de reabilitação motora, no restabelecimento das funções de acidentados ou de convalescentes de acidentes vasculares cerebrais.

A violncia contra a mulher na msica

Como se vê, a música é importante para a humanidade e serve para muitas coisas... Inclusive para legitimar preconceitos e propagar violência. Trago, por exemplo, uma música antiga (do meu tempo de criança!) e que contém uma mensagem muito forte de violência contra a mulher. E pasmem: era cantada por crianças; inclusive esta música elevou a carreira delas. Qual música é? O nome é “Maria Chiquinha”, cantada pela dupla Sandy & Júnior.

A música tem uma melodia gostosa, é engraçadinha, mas talvez poucas pessoas pararam para ver do que realmente ela trata.

É simples:

Maria Chiquinha era casada com Genaro, a quem ela carinhosamente chamava de “meu bem”. Acontece que a Maria andava se perdendo pelos matos e Genaro desconfiou. Genaro perguntava:

- Que cocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Quem é que tava lá com você?

Ela respondia:

- Eu precisava cortar lenha, Genaro, meu bem; e eu estava com Sinhá Dona.

Genaro, malandro que era, dizia:

- Eu nunca vi mulher de bigode, Maria Chiquinha!

E assim a briga estava formada e..., como quase sempre, acaba feio para a mulher. Maria Chiquinha caiu na mentira, pois esta tem perna curta, e escutou de Genaro – o homem a quem ela chamava de “meu bem”:

- Eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha!

Assustada, ela pergunta:

- E o que você vai fazer com o resto?

- O resto? Pode deixar que eu aproveito! Disse Genaro.

Que enredo bizarro, heim? Um homicídio qualificado por meio cruel (CP. 121, § 2º, III) e que foi motivado por ciúme – palavra cujas origem remete ao vocábulo grego zelos, o qual significa fervor, calor, ardor ou intenso desejo.

É verdade: ciúme todo mundo tem.

Freud dizia que

“O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se alguém parece não possuí-lo, justifica-se a inferência de que ele experimentou severa repressão e, consequentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente.

Não ter ciúme é a manifestação de alguma doença do ser, alguma repressão. É normal, pô. O problema é quando, aliado ao ciúme, temos a ideia, tão histórica e enraizada, de que a mulher é propriedade do homem. Neste caso, o ciúme se torna um fevor, calor, ardor ou intenso desejo de ser dono do outro e de não permitir que o outro siga a sua vida por outros caminhos. Aliás, dizia Rubem Alves: O ciúme é aquela dor que dá quando percebemos que a pessoa amada pode ser feliz sem a gente. E dizia mais o Rubem:

O apaixonado que desconfia quer manter sob controle até o pensamento do ser amado. Diante de tamanha impossibilidade, ele se tortura e quer o outro cerceado. É a antítese do amor.

A violncia contra a mulher na msica

Assim, esta música cantada pelos guris Sandy & Júnior revela fatores realmente interessantes da sociedade – da época e com fortes resquícios na nossa:

  1. O ciúme está presente na humanidade;
  2. Há estágios do ciúme onde o zelo torna o outro propriedade;
  3. O ciúme mata; e
  4. O mais importante: a gente cantava uma música com clara violência doméstica, contra a mulher, com a maior naturalidade e felicidade.

Eu sei que algumas pessoas vão dizer que analisar a música assim é puro vitimismo, que hoje “não se pode mais nem falar nada que a patrulha chega”, e etc. Eu sei que vão falar isto; mas pare, olhe e pense: quem reclama que hoje não se pode mais falar nada é justamente quem tinha, antes, o privilégio de ofender impunemente qualquer pessoa. Não estou querendo com isto impedir que pessoas escrevam bobagens e ofendam. Defendo o direito do mais estúpido do mundo se manifestar – contanto, claro, que este aceite, sem choro, a crítica dos que são ofendidos e não mais se calam.

A violncia contra a mulher na msica

É preciso, sim, desmascarar toda a arte usada para agredir e perpetuar violência simbólicas ou físicas. E parafraseando o Nietzsche: “sem música a vida seria um erro, mas têm músicas que, por não respeitar a dignidade da vida alheia, são o próprio erro”.

Dicas de Leitura:

  • Freud, S. (1922-1989). Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo.
  • ALVES, Rubem. O Ciúme (Crônica)
  • BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso.

38 Comentários

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Wagner, como de costume, nossas ideias são totalmente distintas.
Gosto de ouvir muitos tipos de música. Uma delas, por exemplo, antiga, da banda D.O.P.E. diz: "Die, M.F., Die! (Morra, filho da p...., morra).
Nunca vi maldade na música. Ouço, extravaso, e não mato, tampouco xingo alguém.
Adoro Bezerra da Silva. Nas entrelinhas, ele geralmente fala de drogas, de caguetes e da polícia, sempre com bom humor. Nem por isso, eu uso ou vendo drogas; também nunca vi alguém dizer que passou a usar drogas porque Bezerra da Silva fomentou a ideia.
Sei lá, talvez eu seja uma exceção, mas não consigo ver tanta relevância em uma letra musical assim.
Garanto-lhe que não é a letra musical que criará um criminoso; há música para todos os gostos no país, se você não gosta, não precisa ouvir.
Mas, por favor, não decidam que música eu devo ouvir. Isso eu mesmo prefiro escolher. continuar lendo

É sempre bom ter alguém divergindo, Hyago. E, sinceramente, dada as nossas diferenças ideológicas, no dia que concordamos com algo precisamos parar e rever onde erramos. rs

E também concordo que ninguém deve impedir o outro de ouvir, cantar o que quiser. Também não se deve impedir as críticas. Os embates são o motor da democracia.

Um abraço!!! continuar lendo

Essa é uma boa discussão Hyago, em geral também gosto de muitas músicas com letras que, se parar para analisar, podem ser criticadas por incitar algum tipo de violência, mesmo eu nunca tendo agido desta forma.

Meu ponto é o seguinte: eu não posso ser parâmetro para se medir o mal que uma letra agressiva de música pode fazer, assim como você também não, talvez por um nível de instrução, ambiente familiar respeitoso e amoroso e outros fatores que não citarei. Mas será que esta mesma letra agressiva, incitando um violência, tratando esta como normal (talvez pela ingenuidade, como disse o Wagner) na cabeça de pessoas menos instruídas não pode gerar, inconscientemente, um desprezo por determinado grupo, ou mesmo incitar algum tipo de violência?

Pensarei a respeito. Forte abraço! continuar lendo

Sim, Marcio. Mas penso que, quanto menos instruída a pessoa, menos ela efetivamente para pra pensar nas coisas ditas nas músicas. Quando eu era criança, eu ouvia É o Tchan e Mamonas Assassinas... Veja quanta baboseira há nessas letras! hahahaha Mas, pela inocência e pouca instrução, nunca parei efetivamente para refletir sobre. Creio que com adultos não seja tão diferente assim. De qualquer forma, é certo que uma música não cria nenhum criminoso, ou fomenta ideias delituosas. continuar lendo

Mas esse ó meu ponto Hyago, será que não rola uma influência inconsciente? Desconfio que sim, ainda que sem base científica. continuar lendo

Como sempre as mesmas pessoas comentando e debatendo. Adoro ver os posicionamentos das partes. De forma geral, meu pensamento coincide com do Hyago e diverge do Wagner e mais uma vez isso aconteceu, porem entendo a preocupação com musica e liberdade de expressão de grande alcance da massa.

Eu nunca cometi crimes por ouvir Racionais na adolescência, nunca tive vontade de ser encanador por jogar Mario Bros na infância. Mas este sou eu, uma pessoa que como a maioria tem capacidade de questionar e separar as coisas, que sabe podará os atos e fazer escolhas de forma menos manipulável. O que não acontece com todos, certas pessoas não sabem separa uma musica como mero entretenimento formam a opinião a partir de uma informação e sim a copia do outro.

"Eu sei que algumas pessoas vão dizer que analisar a música assim é puro vitimismo, que hoje “não se pode mais nem falar nada que a patrulha chega”, e etc. Eu sei que vão falar isto" Parece que esse trecho já era uma defesa para argumentos prováveis. Porque realmente vivemos num momento de vitimismo e mimimi. Sou TOTALMENTE CONTRA CENSURA só acredito que as pessoas devem ser responsabilizadas pelos seus atos.

A preocupação não é com uma letra do FACÇÃO CENTRAL e sim com as pessoas que levam aquilo como forma de pensamento, e para piorar montam outras bandas. QUANTO MAIS BANDAS estilo facção central estiver prova que mais pessoas partilham desse pensamento. continuar lendo

Caro Wagner Francesco, percebo que assim como eu, você é de Salvador. Não sei se tem conhecimento da polêmica que aconteceu a mais ou menos uns quatro anos atrás em Camaçari por causa desse entendimento em relação a música.

Uma certa deputada e também esposa do prefeito na época, resolveu censurar certas letras de "músicas" e por incrível que pareça foi reprovada pelas próprias mulheres.

É inegável que muitas músicas promovem violência, não somente contra a mulher. continuar lendo

Sim, Fátima, eu vi esta polêmica. Eu sou contra a deputada proibir; na verdade eu sou contra toda proibição de expressão. Acho que todo mundo tem o direito de falar o que quiser e de agradar o público que gosta - mesmo que eu considere o público e quem produz uma raça desprezível. Não se combate nada com repressão, mas com embate. Eu sou a favor da crítica como arma.

Um abraço! continuar lendo

Concordo com você Wagner Francesco, só não entendi mulheres não entenderem que há incitações à violência nas letras "musicais".

As vezes estou na rua e passam aqueles carros com o som aberto para que no Japão ouçam, e me pergunto: Como alguém ouve isso e ainda obriga outros? Por incrível que pareça, quanto mais alto o som, mais violência nas letras, é o que tenho ouvido por aqui. continuar lendo

Eu "acho" que entendo. Um grande filósofo Marxista, o Lukács, falava em "Consciência de classe". Pra ele a consciência de classe não era a soma do que a classe pensava, mas a percepção da opressão que levava a uma ação. Estas mulheres não percebem a violência, muito embora muitas sejam vítimas - como um monte de mulher de traficante que apanha do cara, mas "desce na boquinha da garrafa" no Salvador Fest.

Por isto acho que impedir não adianta nada. É preciso deixar as coisas expostas e educar.

E sobre o som alto, li uma pesquisa que Salvador é uma das cidades mais barulhentas do mundo. E você tem razão: quanto mais alto, pior, do meu ponto de vista, a qualidade da música. continuar lendo

Fátima. Não consigo entender muitas mulheres que escutam funk. Letras sempre desrespeitosas com o pudor do gênero mulher. Pelo fato de haver liberdade e não haver censura as coisas estão desse jeito. continuar lendo

Não sou contra o Funk porque o que eu conhecia era bom não falava a sacanagem de forma explicita.
De um tempo pra ca, o funk foi deixando sua letra mas sacana de uma forma que os adolescentes poderiam imaginar o que realmente dizia.
Hoje o Funk proibidão até uma criança entende a bagaceira da letra.
Sou contra a música influenciar negativamente, mas, como disse o colega Wagner, é preciso educar.
Se o país tem uma boa educação os próprios jovens repudiariam as músicas com letras assim! continuar lendo

Ginamara talvez a censura hoje só vai fazer a coisa se proliferar mais ainda.
Já ouviu aquela frase usada por políticos quando são criticados: "Sou igual massa de pão, quanto mais betem mais cresço"?
Não adianta censurar vide exemplo do site megafilmes quando os donos foram presos as pessoas acharam outros sites para ver filmes e series, ou seja, sempre vão achar outra forma de buscas ou divulgar aquilo que é censurado.
Acredito que a uma educação melhor é que vai matar essa falta de cultura que vemos hoje crescer cada vez mais! continuar lendo

Bom dia pessoal!! Achei muito pertinente abordar esse tema, pois, percebemos que o meio musical tem passado por uma crise de qualidade, principalmente no que tange aos estilos musicais mais populares, ou, populescos, como melhor convir.
Sobre o episódio em Camaçari, entendo que foi uma medida coerente o projeto de lei apresentado pela Deputada, no qual, bandas que trouxessem nas letras de suas músicas mensagens que ofendessem a mulher e a colocassem em posição de desprestígio seriam impedidas de contratar com o poder público local, e assim não se apresentariam em eventos patrocinados pela prefeitura.
Achei uma excelente medida, e gostaria que atitudes como essa fossem copiadas em outras cidades e Estados da Federação.
Temos que incentivar a produção de coisas que nos acrescentem algo, e não às que nos diminuam e nos desprestigiem. continuar lendo

Ítalo, perfeitamente!
Tenho vizinhos "funkeiros", sei o que as letras falam, sendo que inclusive ontem estava estudando a tarde e minha vizinha abusou do espaço alheio. A música estava tão alto e com muitas baixarias. Isso é uma violência invisível, pois houve falta de respeito com o meu espaço. Não tem como uma sociedade dessas prosperar.
Concordo com todos vocês, a educação precisa "sofrer" reajustes.
As pessoas precisam aprender desde criança que existem espaços a serem respeitados. Enquanto nossa base não estiver solidificada e forte não haverá ética na sociedade. continuar lendo

Fico com o pensamento do filósofo Marxista Lukács. continuar lendo

Ginamara Priscila, infelizmente essa falta de seletividade e bom senso, não acontece só com a música.

Se você observar, muita coisa ruim prolifera porque muita gente simplesmente "entra de gaiato no navio" é do tipo "eu vou com a galera", não medindo as consequências do que a sua adesão impensada a certas coisas pode trazer num futuro bem próximo, o "radar" não capta os sinais, lamentavelmente. continuar lendo

Ginamara sei bem o que é isso!
Se você observar todo código de Posturas do município impõe um limite de Decibéis e regula os horários e definições de sossego público.
No seu caso certamente é perturbação ao sossego público, mas os órgãos competentes, neste caso a Prefeitura, não te atendem quando você a provoca e você é obrigada além de ser perturbada ter que ouvir aquelas letras, se é que pode chamar assim
Fátima Miranda sempre com lucidez em seus comentários alertou que isto não ocorre somente na música, ocorre na mídia, nos atos do dia a dia, na rotina e tudo por falta de bom sendo e complemento também a falta de vergonha! continuar lendo

Proibir não seria o caminho, bom mesmo é colocar esses temas em discussão, sempre que possível, aqui e nas demais redes sociais. Ambiente que tem vocação para ampliar os debates e confrontar opiniões, esta é uma das virtudes que não me canso de exaltar na internet.
Muito ainda se tem que pensar a respeito da posição da mulher na sociedade e nas relações pessoais, principalmente porque todo homem nasceu de uma mulher e dela recebe influência e conceitos que levará consigo pela vida inteira. Penso que o machismo é perpetuado por nós mesmas, principalmente quando exercemos nossos papéis de mães e esposas. continuar lendo

Na nossa sociedade podemos debater e isso é muito bom!
Debatendo começamos a enxergar essas nuances (machistas, xenofóbicas, racistas, antropocentristas, homofóbicas, etc ...) na nossa cultura e no nosso cotidiano (músicas, filmes, desenhos, novelas, livros, roupas, hábitos, ditados, etc...) e podemos propor novas formas de se expressas com novos valores.

Seria o caso de criar o manual do "politicamente correto"? continuar lendo

Veronica, sou otimista rsrs. Não sou favorável a manuais, pois em minha opinião eles não têm o poder de alterar consciências. Em prol da humanização, prefiro debate e reflexão mesmo. continuar lendo

"E se, por acaso, um perverso sujeito,
Querer fazer uso e abusos de agora...
Já entra o machismo impondo respeito...
E arranca o perverso em seguida pra fora."

Gildo de Freitas. continuar lendo

Oh Alex, não entendi patavinas do que vc disse.... continuar lendo

Outro excelente texto, amigo.

Depois dê uma olhadinha no nosso primeiro trabalho aqui:

http://maykellfhelyp.jusbrasil.com.br/artigos/265773240/correcoes-genericas-por-atacado-ou-correcoes-britanicasoabuso-das-bancas-examinadoras-em-concursos-publicos continuar lendo

Opa! Lerei sim! o/ continuar lendo