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19 de Agosto de 2019

Por que cervejeiro é empresário e dono de "boca de fumo" é traficante?

A insustentável blindagem aos fabricantes de álcool.

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 4 anos

A Revista Forbes apresentou uma lista dos 10 bilionários mais jovens do Brasil em 2015. Na lista tem o

  • Gilberto Schincariol - R$ 2,2 bi;
  • Adriano Schincariol - R$ 3,57 bi;
  • Alexandre Schincariol - R$ 3,57 bi.

Duas coisas me chamaram a atenção:

  1. Como estes caras conseguiram ganhar tanto dinheiro? Esta cerveja é horrível ao ponto de eu preferir beber água mineral; e
  2. que luta contra as drogas é esta onde os três jovens bilionários ficaram bilionários vendendo álcool - que é grande responsável por acidentes de trânsito e quase sempre presente em casos de violência doméstica?

É inadmissível que num país onde a guerra contra as drogas tire tantas vidas e jogue outras milhares em cadeias a gente aceite o sorriso na cara das pessoas que ficaram bilionárias com o fabrico, uso e consumo de uma droga. Pois, afinal de contas: a briga é contra as drogas ou para manter a droga X legalizada e a Y não?

Ainda não vi uma justificativa plausível para que o álcool seja legalizado e pessoas fiquem ricas com ele, e a maconha - e as demais outras drogas - seja criminalizada.

O absurdo lucro que a droga legalizada d

Assim, me parece que fabricante de cerveja é empresário e dono de "boca de fumo" é traficante. Por que não tratamos os dois como empresários ou os dois como traficantes? Certo, o dono da cervejaria não pode ser traficante porque a cerveja é legalizada. Aí voltamos ao ponto inicial: por que a cerveja é?

O absurdo lucro que a droga legalizada d

Resumo: o problema não é fabricar, vender ou consumir a droga; o problema é não ter o lobby. Mesmo porque, né? Não é raro a gente ver, com cara de ressaca, promotor denunciando e juiz aceitando a denúncia e mandando maconheiro pra cadeia.

70 Comentários

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Realmente, as contas não fecham, somente o lobby explica. Pois cada acidente de motorista alcoolizado custa caríssimo para o Brasil: cirurgias de politraumatismo, blitz com bafômetros, mortes, resgate, vias fechadas... e nós "toleramos" isso sem tabus. Cigarro, idem... toleramos os monopólios do tabaco. Agora, e se começássemos a tratar todas as drogas como problema de saúde pública? Será que o aumento de impostos recolhidos, a redução da violência, tudo isso pagaria um programa de excelência no tratamento do crack, cocaína (e o que aparecer mais), assim como o tratamento da AIDS no Brasil foi um exemplo? continuar lendo

Pois é, Thiago. Mas vá tentar colocar isto na cabeça de nosso povo... continuar lendo

Wagner Francesco,

Prazer mais uma vez! Perdoe-me por sempre discordar de seus posicionamentos, mas como diria Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra".

Acredito, nobre amigo, que o grande problema das drogas como maconha, crack, heroína, cocaína é alto poder de vício, que o amigo queira ou não, é muito, mas muito superior ao do álcool.

Só para constar, antes de continuar, não bebo. E já perdi dois tios, vítimas do alcoolismo e já parentes próximos em situação bem deplorável por conta do álcool.

Mas onde quero chegar é... não tem como comparar o poder destrutivo do álcool com o de "drogas pesadas" que você citou.

Eu consigo imaginar grupos de amigos bebendo toda sexta-feira, o famoso "Happy Hour", e levando suas vidas, sem se viciar, mas esse mesmo grupo de amigos consumindo heroína e crack, ao invés de álcool já vejo outro desfecho amigo... creio que nisso irá concordar comigo.

Por mim deveria proibir o consumo de álcool, até por que não bebo, mas agora... usá-lo como paralelo de comparação para justificar a legalização de outras drogas vejo como demagogia e oportunismo... além de um retrocesso. Você lembra o que o ópio fez com a China?

Agora vejo que também, apesar de não eu não fazer consumo de álcool, e até ser a favor de sua proibição, vivemos em uma democracia. Deve imperar a vontade da maioria, dentro de certos limites éticos e morais.

O álcool faz parte das tradições dos mais diversos povos da humanidade. E por mais danos que ele cause, não chega nem perto dos danos que causam as drogas que você defendeu a legalização (crack, maconha, heroína).

E outra, movimenta a economia... gera empregos, tributos para ser investidos em educação e construção de hospitais.

Os danos do álcool é mais em virtude do seu consumo irresponsável do que o seu consumo por si só..

Muito diferente do crack... onde não existe margem para consumo seguro... continuar lendo

Carlos, nada me deixa mais feliz que uma discórdia, pois é nela, a partir de um diálogo respeitoso e coerente, que o mundo caminha.

Mas veja. Eu discordo de você aqui:

"Mas onde quero chegar é... não tem como comparar o poder destrutivo do álcool com o de"drogas pesadas"que você citou."

Dá pra comparar, sim. Eu conheço várias pessoas que consomem álcool e estão com a vida destruída e pessoas que usam crack e cocaína e trabalham normalmente. Não é uma matemática. Eu, por exemplo, algumas vezes não fui trabalhar por estar de ressaca.

Numa entrevista muito interessante, o Dr.Carl Hart meio que quebra esta sua linha de argumento. Na entrevista,

Amy Goodman: Você está dizendo que o crack não é tão viciante quanto todos dizem?

Dr. Carl Hart: Bom, temos um belo exemplo agora: o prefeito de Toronto, Rob Ford. Ele usou crack e fez seu trabalho normalmente. Deixando de lado o que pensamos sobre ele ou suas políticas, ele foi ao trabalho todos os dias. Ele fez seu trabalho. A mesma coisa aconteceu com Marion Barry. Ele foi ao trabalho todos os dias. Na verdade, ele o fez tão bem na opinião das pessoas de Washington que ele foi votado mesmo depois de ter sido condenado pelo uso de crack. E assim é a maioria dos usuários de crack. Assim como qualquer outra droga, a maior parte das pessoas o faz sem outros problemas.

Amy Goodman: Compare com o álcool.

Dr. Carl Hart: Bom, quando pensamos no álcool, cerca de 10% a 15% dos usuários são viciados ou se encaixam em critérios do alcoolismo; para o crack, cerca de 15% a 20% - quase a mesma coisa se tratando de números. E nós sabemos disso cientificamente já faz 40 anos. Mas não dizemos esse tipo de coisa ao público

Fonte: http://goo.gl/7oH1wH

O problema não é droga, mas cada indivíduo e sua forma de consumo. continuar lendo

Wagner Francesco,

Dados interessantes, eu não sabia deles. Mas não querendo discordar... mas discordando um pouco, eu já morei em Belo Horizonte, uma grande capital, e atualmente moro em São Paulo, outra grande capital, e o que leva boa parte das pessoas a morar nas ruas em condições degradantes é as "drogas pesadas", tais como o crack.

Você citou uma autoridade e dados estatísticos, não quero discordar, mas vão de encontro ao que presenciamos empiricamente falando em nossos grandes centros urbanos.

Olha esse site:

http://www.antidrogas.com.br/tipos.php

Ele tem um ranking do poder de vício das drogas... na classificação deles, retirada de um ranking norte-americano, o poder de vício do álcool seria 6 e o da heroína 35, Cocaína 22...

Já viu um dependente de álcool em tratamento e já viu o de um dependente de heroína? Concorda que o da heroína é bem pior e mais difícil? Você acha documentários que retratam essas experiências na internet. continuar lendo

Realmente, nunca vi nenhum usuário de heroina, mas já vi de várias outras drogas. O problema é que a gente olha para a droga levando em consideração sempre as vidas desgraçadas que conhecemos, mas a gente não leva em conta que, agora mesmo, do nosso lado, aquele empresário bem sucedido ou estudante bem aplicado, pode estar um usuário de drogas.

Agora, claro. Não estou fazendo apologia à droga. Jamais faria isto. continuar lendo

Carlos, tenho um amigo se encaminhando para o PhD, em reconhecida faculdade de São Paulo... viciado em cocaína há mais de 20 anos. É triste, é pior para ele do que para as pessoas à sua volta, o coloca em risco legal, risco de saúde, o expõe a criminosos perigosos... mas veja, ele é um cidadão produtivo, respeitado em sua pesquisa original, tem vínculos familiares e afetivos estáveis... acredito que o verdadeiro "combustível" da devastação de uma droga seja a base psicológica/familiar/educacional da pessoa... uma pessoa frágil se afunda no álcool... uma pessoa estruturada consegue sair dos piores e mais graves vícios como heroína e crack... não é fácil. Mas olhe, eu trabalhei com médicos que fazem transplante de fígado. Aqui no Brasil, se a pessoa parar com o alcoolismo, pode fazer o transplante. Custa uma fortuna ao SUS. Porque permitimos que ela receba este nobre tratamento (e eu sou a favor disso) e não permitimos tratamento do crack? continuar lendo

Colocar maconha no mesmo rol de cocaína, crack e cocaína é demonstrar falta de conhecimento sobre o assunto.
Até porque estudos mostram que é bastante menos danosa E menos viciante que álcool... O vício da maconha é 100% psicológico, muito diferente do crack. continuar lendo

Carlos, concordo com sua exposição e lembro que o articulista deixou de citar o fumo (cigarro) que é consumido muito mais que álcool e deixa muito mais ricas as empresas, que são multinacionais e cujos lucros são remetidos aos seus países, ou seja, o fumo tem o mesmo poder destrutivo do álcool , causa um enorme numero de vitimas anualmente e pessoas também ficam ricas com ele, só que vivem em outros países............... continuar lendo

Se tiver a oportunidade de ver alguns estudos relacionados ao vício em drogas, terá um bom material nesse excelente artigo:

http://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/234303013/ainda-sobre-narcos-por-que-insistimos-em-prender-traficantes

Dentro desse artigo tem um link que remete a um estudo que desmistifica a lesividade de uma ou outra droga. O que determina um vício, segundo esses estudos, é o ambiente e não o efeito químico da droga.

Na guerra do Vietnã, por exemplo, 20% dos soldados consumiam heroína regularmente. E somente uma pequena parte teve que tratar da dependência quando retornou para casa. Naquele ambiente estressante, sem os vínculos que nos fazem humanos, o meio de obter prazer mais facilmente era a droga. Então, quando voltavam para casa, e lá encontravam um ambiente agradável, o fato de ter usado heroína não os fez retornar a usar. E assim era com a maioria das pessoas que usavam essas drogas em tratamento médico durante meses em hospitais e não tornaram-se viciados.

Bem, se tiver interesse, o estudo está nesse link abaixo. É muito esclarecedor. A política de drogas só serve para beneficiar poucos com seus altos lucros. Apesar de o álcool beneficiar mais pessoas como as descritas no texto, ele possibilita milhares de outros distribuidores a viver vendendo aquilo que as pessoas querem comprar.

http://www.brasilpost.com.br/johann-hari/descobertaaprovavel-cau_b_7597010.html

Recentemente também, vi um filme, "O mensageiro", que fala da história real de um jornalista que busca desmascarar o tráfico de drogas nos EUA. Ele consegue comprovar que a CIA levou o crack para as periferias para financiar a contra revolução em Nicarágua. Muito bom também.

O que determina o vício, então, são outros aspectos. É só ver obesos mórbidos, devido as circunstâncias da vida, encontram no prazer de comer um escape para suas dores.

Quebrei meus paradigmas com esse material que trouxe. Afinal, é vivendo e aprendendo. continuar lendo

Sua argumentação é demais! continuar lendo

Eu abandonei o dialogo com pessoas que são contra a legalização da maconha, mas são a favor do consumo de álcool.

Nunca encontrei um argumento científico para tal posicionamento. continuar lendo

Porque não existe.

Todos somos capazes de termos comportamentos destrutivos. Se não estivermos equilibrados nos apoiamos na primeira muleta que aparecer. Pode ser comida, jogos, sexo, álcool ou crack. Não importa.

Carboidrato + gordura + açúcar = efeito semelhante a da droga, por isso existe uma rede de lanchonetes que gera bilhões anuais. E ainda tem uma campanha maciça para crianças com seu adorável palhaço. continuar lendo

Com todo o respeito pela opinião esposada, discordo: 1) fazer um paralelo do tráfico de entorpecentes, que tem por trás uma cadeia de crimes de homicídio, de corrupção ativa e passiva de agentes policiais chegando até o usuário - que não tem nada de inocente - que retroalimenta esse círculo vicioso. 2) Sou Procurador de Justiça Criminal em São Paulo (portanto minha visão é a do maior número de feitos criminais do Brasil e não de uma província de Coité das Mulas) e vejo sem exceção os processados por crimes da Lei nº 11.343/06 que iniciaram suas atividades como usuários de maconha! 3) apontar e identificar empresários que geram milhares de empregos e impostos apenas como detentores de um lobby é tendencioso e inverídico; 4) levianamente afirmar que Juízes e Promotores de Justiça trabalham embriagados com álcool em nada contribui para o aprofundamento da questão, além de ser absolutamente imaginoso. Acompanho suas postagens. Essa foi a pior. Att. Carlos Roberto Marangoni Talarico - Procurador de Justiça Criminal do MP/SP. continuar lendo

Esses mesmos empresários que geram milhares de empregos, geram também milhares de mortes e mutilações permanentes, como resultado do uso dos produtos que eles fabricam. O comércio de entorpecentes abriga uma cadeia de crimes por que o Estado entregou de mão beijada à bandidagem, o monopólio desse próspero e lucrativo mercado. No Colorado, Oregon, Alasca, Washington, Portugal, a maconha é vendida em lojas e não se tem notícia de ocorrências delituosas por conta desse comércio. O usuário de maconha, para obter o seu objeto de desejo, é obrigado a ir à biqueira, entrar em contato com traficantes que colocam à sua disposição um cardápio variado de todo tipo de droga, Isso contribui para o ingresso no consumo de drogas pesadas. Se houvesse uma possibilidade legal de se adquirir a maconha, como nos lugares acima citados, isso poderia ser evitado. Essa política de encarceramento fracassou em seu propósito. Para os braços coercitivos do Estado (polícia e judiciário) não existe usuário pobre, negro ou favelado. Todos são traficantes. continuar lendo

Também discorda de sua posição esposada: 1) só existe tal "cadeia de crimes" por efeito da criminalização (isso é fato comprovado pela História). 2) Já foi comprovado, também, (basta acompanhar o caso no STF e os votos dos Ministros) que viciados iniciaram seu vício no álcool (Eu mesmo iniciei bebendo vinho, passei pra bebida destilada, posteriormente passei pra cocaína, LSD etc... cheguei a usar crack várias vezes. Hoje apenas fumo maconha, essa ordem, no meu caso, pode ser exceção, mas o inicio é a bebida [perdi vários parentes por causa dela]). 3) coloque na balança quantidade de empregos gerados versus número de mortes provenientes do abuso de álcool... o texto acima tocou no ponto exato: porque se assunto é combate às drogas damos tratamento diferenciado pra algumas? Só porque gerarem empregos não é um bom argumento. 4) Esse argumento eu concordo... (apesar de imaginar que aconteça isso [ou até mesmo Juízes e Promotores que devem utilizar outras drogas que são cunhadas pela lei de ilícitas...]).

At.te, Phillip Félix, Estudante de Letras da UFMG. continuar lendo