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24 de Março de 2017

A falida geração que no Direito só decora fórmulas

Wagner Francesco ⚖, Estudante de Direito
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 2 anos

Waldir Troncoso, um dos melhores advogados criminalistas da história brasileira, diz numa entrevista:

Nos meus tempos de estudante, nosso divertimento era sentar num bar e fazer concurso para ver quem sabia mais poesia de cor. […] Quem não lesse no meu tempo, quem ficasse só estudando Direito, era ignorante. E a mocidade de hoje, em termos de leitura me parece que esqueceu um pouco de que esse é um dever do advogado.

Sempre tive “problemas” com quem “só estuda pra concurso” ou “só estuda pra tirar nota boa”. É lógico que eu não estou dizendo que quem estuda pra concurso não é intelectual e nem sabe das coisas. Longe de mim pensar isto, afinal de contas conhecemos inúmeros concursados inteligentes… O problema é que é inegável que a preparação para os concursos - e para as maratonas de provas nas universidades - realmente limita demais a capacidade criativa e erudita do sujeito. 8, 9 horas sentado decorando artigos, parágrafos e incisos. Além disto, respondendo questões de provas passadas e vídeo-aulas.

O que sobra? Nada. Pois se pensar fora da linha é reprovado na prova do concurso que funciona na base da robotização.

Em artigo recentemente publicado aqui no JusBrasil sob o título Estamos formando profissionais de Direito Capacitados?, uma curiosa questão foi posta:

Conversei com três professores de outras faculdades de Direito […] Responderam-me que têm constatado o mesmo, muito embora enfatizassem mais os erros de português e dificuldades de expor as ideias em uma sequência lógica de raciocínio.

Sou um crítico ferrenho do modelo de educação jurídica: provas chatas com pegadinhas, uma limitação gritante de oportunidade para debater as questões - sem contar que há uma limitação gritante de alguns alunos em debater as questões quando a oportunidade é dada - e principalmente a doença terminal para se preparar para a prova da OAB. Sim, é fato: o curso de Direito virou cursinho para a aprovação na prova da Ordem dos Advogados. Somos a geração do V ou F ou da múltipla escolha (A, B, C ou D? Coloque no gabarito!)

Uma gerao que no Direito s decora frmulas

Há muita limitação. Há uma perda enorme do encanto. Muita gente sabendo muito da letra morta da lei e pouco, muito pouco, do espírito que atua na vida, para além da letra. Fico triste quando ouço colegas meus falarem que não gostam de filosofia, nem de sociologia, nem de política. Mais triste ainda quando ouço que não gostam de ler textos grandes e complicados. E que não acham graça em poesia. A galera do Direito Esquematizado ou Mastigado. Resultado? Uma geração de estudantes que está se preparando para o mundo tedioso da burocracia do serviço público.

Um conselho: caia fora. Permita-se andar fora da linha, nas beiradas dos abismos. Nem só de decorar as fórmulas e resolver provas de concursos anteriores vive o homem. Pare e reflita no que ensina o nosso grande amigo Schopenhauer no livro "A arte de escrever"

A maioria dos livros é escrita somente para vender e, por isso, é importante assim como escolher o que ler, escolher o que não ler, pois a vida é curta e tempo e energia são limitados.

Há mais coisas úteis ao Direito fora dos livros de Direito. Permita-se conhecer!

Wagner Francesco ⚖, Estudante de Direito
Theologian and Human Rights Activist
Teólogo e Acadêmico de Direito. Pesquiso nas áreas do Direito Penal e Processo Penal.
Disponível em: http://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/artigos/185527097/a-falida-geracao-que-no-direito-so-decora-formulas

98 Comentários

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E o que é "Direito" sem a filosofia/sociologia/psicologia........?! continuar lendo

Concordo com você, Pedro. É que a galera não vê a hora de "começar logo as matérias de Direito" na faculdade. A galera quer é o Vade mecum. rs continuar lendo

Infelizmente tais matérias são tratadas com descaso inclusive pelas faculdades. Os professores dificilmente conseguem, ou sequer se esforçam para relacionar os temas propostos à rotina jurídica. continuar lendo

Realmente esse é um problema corriqueiro dentre os estudantes de direito. Há uma falta de incentivo e preguiça de uns professores aliado à preguiça e ao imediatismo de alguns alunos. Eu, recém formada, me sinto com uma perna dentro do que vc descreveu e com uma perna fora. Tento todo dia ler um pouco mais, aprender um pouco mais. Gosto de ler (confesso que prefiro a leitura não jurídica), gosto de escrever, gosto de debater, mas muitas vezes sou impedida pela minha preguiça ou, quando disposta, pelos entraves do sistema de ensino e tb do sistema de trabalho, que não nos incentiva a buscar conhecimento fora da área de atuação.
Tive a felicidade de ter alguns bons professores que promoviam o debate, a discussão, que instigavam a curiosidade dos alunos, mas foram tão poucos. Tive também um bom estágio que me permitiu ir além do trabalho burocrático. Mas você está certíssimo. São muitas as entraves ao ensino jurídico hj (muito, tb, em questão de mtos não fazerem por vocação ou gosto mas por outros tipos de interesses) continuar lendo

Eu também gosto de ler coisas fora do Direito, Lorenna, em especial coisas relacionadas à teologia e psicanálise. E lógico, sou apaixonado pelos livros da coleção Games of Thrones. :) continuar lendo

Não sou chegada em teologia e psicanalise, Wagner. Prefiro história antiga e vida de Jesus. Agora, empato com vc quanto à Guerra dos Tronos. Só estou brava pq. não seu o que vai acontecer com o Tyrion. continuar lendo

Eu estou começando agora a série de livros de Cronicas de Gelo e Fogo e acompanhando a série também, porque ninguém é de ferro (só o trono). Mas no mais sou muito curiosa e leio de tudo um pouco, desde coisas bobas e quase inúteis a descobertas científicas pelo mundo. Mas meu grande interesse está na primeira e segunda guerras. Adoro continuar lendo