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20 de Novembro de 2018

Os concurseiros e o desperdício de talentos

Os gênios americanos criam empresas fantásticas que mudam os rumos da humanidade. Os gênios brasileiros passam em concursos públicos

Wagner Francesco ⚖, Advogado
Publicado por Wagner Francesco ⚖
há 4 anos

Advertência: esse post é uma resposta aos comentários dos leitores ao post anterior, "O ônus da cultura do funcionalismo público", cuja leitura é recomendada.

Eu sabia que iria gerar polêmica. Eu sabia que iria levar pedrada. Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo. Agradeço, de antemão, a todos que comentaram o artigo O Ônus da Cultura do Funcionalismo Público. Meus amigos, apenas gerando discussões e debates, somos capazes de avançar. Aviso que irei me estender um pouco...

A minha preocupação central é justamente com a corrida em todo o Brasil por vagas no setor público cujo trabalho em nada acrescenta ao crescimento econômico do país. Quando falo de crescimento econômico, isso não desmerece a importância do serviço público ou dos funcionários públicos. Todos cumprem o seu papel na operacionalização da máquina estatal, sem a qual não viveríamos. Em nenhum momento digo que o setor público é inútil ou "inerte" (como esbravejou um leitor)...

Outro dia soltei uma frase no Twitter que gerou uma grande repercussão e que é oportuna reproduzi-la aqui: Os gênios americanos criam empresas fantásticas que mudam os rumos da humanidade. Os gênios brasileiros passam em concursos públicos.

Para gerar crescimento econômico, é preciso investir em ciência e tecnologia, inovação e desenvolvimento de novos negócios. Esse é um postulado econômico puro e simples. Entretanto, grande parte de nossos maiores talentos, pessoas capacitadas, sente-se muito mais atraída pelo eldorado chamado serviço público, devido, principalmente, aos atrativos citados no início do artigo –(...) salário vitalício, benefícios garantidos pelo Estado, estabilidade, carga horária conveniente (...). Essas pessoas, por exemplo, poderiam contribuir para a melhoria das condições do setor privado – que é quem leva o Brasil nas costas -, seja estudando a fundo a problemática das empresas, seja colocando em prática a sua visão de excelência, servindo de exemplo e referência para outras empresas e outros profissionais.

Esse é o ponto central de meu artigo, que desenvolve a seguinte linha de raciocínio:

A instabilidade econômica e escassez de empregos ocasionam o desinteresse por empreender e a buscar empregos na iniciativa privada. Ao mesmo tempo, elevam o interesse de muitos por vagas no setor público, em virtude das "vantagens" citadas anteriormente. Um número incontável de pessoas com preparo e talento passa a se dedicar – e com uma certa obsessão – a passar em algum concurso. Logicamente, o setor público não pode absorver todo esse contingente de pessoas. Logicamente, alguns passam, mas a imensa maioria permanece se preparando continuamente, na espera de algum dia ser aprovado. Enquanto se preparam para os concursos, não desenvolvem habilidades e competências essenciais na iniciativa privada. Os conhecimentos que adquirem nessa jornada são rasos. Sabe mais quem sabe um pouco de tudo para poder fazer a prova, e saber um pouco de tudo é o mesmo que nada: não provoca avanços na ciência, tampouco estimula a inovação e tampouco fomenta novos negócios. Tais conhecimentos, arrisco-me a dizer, também não são úteis para promover melhorias significativas no próprio setor público. Por quê? Porque o sistema burocrático tem auto-defesas muito fortes.

Se enxergarmos a sociedade através do prisma da burocracia, iremos encontrar um grande sistema de dominação. A maior parte dos Estados contemporâneos se caracteriza por uma ordem política "nitidamente burocrática", embora seja importante fazer a ressalva das diferenças que podem existir de base moral, legal e material de sua autoridade. Um importante pensador da Administração, Fernando Carlos Prestes Motta (já falecido), compartilhava a visão de Claude Lefort de que "a burocracia é um grupo que tende a fazer prevalecer um certo modo de organização, que se desenvolve em condições determinadas, que se amplia devido a um certo estado da economia e da técnica, mas que somente é o que é em sua essência, em virtude de uma atividade social". Ressalta-se, nesse conceito, a questão da atividade social fazendo menção à intenção dos burocratas de se constituírem em um grupo à parte, de um sistema de poder coletivo definido a partir de sua oposição à ausência de poder dos dominados. Cita-se também a sua intenção de se organizarem em um "sistema de mando e subordinação que estabelece diferenças materiais e de prestígio entre os membros do grupo". Para Motta, o fenômeno burocrático caracteriza-se por um conservadorismo expresso especialmente na manutenção e expansão de uma situação de privilégio.

A essência desse fenômeno é a mesma em qualquer dos sistemas políticos das classificações usualmente feitas. No lugar de representar uma ponte entre os interesses particulares e os coletivos, a burocracia serve a seus próprios interesses – "uma corporação que se defende em oposição às demais corporações". A esse respeito, o seguinte trecho da obra de Motta merece destaque:"Enganam-se os que julgam a competência da burocracia pela satisfação dos interesses da sociedade civil. Nesse sentido, a burocracia é sempre incompetente, já que como círculo fechado vive para si própria. A competência da burocracia precisa ser vista na sua capacidade de manutenção e expansão enquanto sistema de poder".

Mais uma vez – e já me encaminho para o final -, o setor público é indispensável em toda e qualquer sociedade. Uma das características dos países desenvolvidos é justamente o perfeito funcionamento das suas instituições, elemento fundamental para que os atores sociais se desenvolvam e contribuam para o desenvolvimento de seu país (questão central também do pensamento de Douglas C. North, Nobel de Economia). Porém, como coloquei já no fim do artigo, o Estado brasileiro não faz sua parte. Pelo contrário, joga contra. Nesse sentido, estamos em um mato sem cachorro.

O estado por si só não se sustenta. É preciso uma economia de mercado dinâmica para sustentar as atividades do estado, de forma que o estado possa desempenhar o seu papel de forma excelente, devolvendo à sociedade em forma de serviços essenciais aquilo que a sociedade lhe proveu na forma de tributos. Entretanto, falta dinamismo ao setor privado brasileiro. E eis aqui algo que me tira o sono de noite. Nosso setor privado realmente não é eficiente, o empreendedorismo brasileiro, no geral (e essa é uma generalização necessária), é muito rudimentar, surgindo muito mais por necessidade do que pela identificação de oportunidades. Não há diálogo entre academia e mercado. E, ao invés de termos pessoas debruçadas sobre os problemas enfrentados por nossas organizações, pesquisando, inovando ou empreendendo, temos um êxodo cada vez maior dos nossos talentos em busca do setor público.

A questão não é se o setor público brasileiro é eficiente ou ineficiente. A questão é que o nosso setor privado precisa de pessoas capacitadas, talentosas e inteligentes, mas grande parte de nosso contingente pessoal com essas características sente-se muito mais atraída por cargos públicos. Do ponto de vista individual, todos aqueles que almejam vagas no setor público estão mais do que certos. Lógico: por que eu deveria me esforçar para atuar em um campo cheio de riscos, sem segurança e sem estabilidade, quando posso trabalhar para o estado, sem me preocupar pelo resto da vida? Porém, o ônus do ponto de vista coletivo é muito alto, pelas razões expostas nesse post e no referido artigo.

Escrito por Leandro Vieira

57 Comentários

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Parabéns pelo artigo! Em Brasília, por exemplo, é raro ver um jovem por volta dos 20 anos que não esteja se preparando para concurso público. Por conta dos motivos expostos nos dois artigos, pessoas talentosas, inteligentes e competentes optam pelo serviço público onde exercerão, em muitos casos, tarefas meramente burocráticas. É natural que a máquina do Estado precise de pessoas igualmente capacitadas, mas é se pensar o prejuízo gerado ao país quanto ao desinteresse das pessoas em trabalhar no setor privado. Por mais vale dizer que achei muito pontual sua colocação de que "os gênios americanos criam empresas fantásticas que mudam os rumos da humanidade enquanto gênios brasileiros passam em concursos públicos". Fica aqui minha pergunta ao autor: essa mudança de foco da classe trabalhadora, que cada vez mais opta pela preparação para um concurso público, aumenta as chances de sucesso dos que se preparam para crescer na iniciativa privada? continuar lendo

Pois é, acredito que enquanto uma turma fica se preparando, se matando pra passar em concurso público - decorando fórmulas, pois concurso público é isto - quem quer crescer na iniciativa privada ganha espaço. O problema é que as faculdades preparam os alunos justamente pra concursos públicos e incentivam muito pouco a criatividade, a ousadia, coisas valiosas para o mercado de trabalho privado. O Brasil tem um número absurdo - o que é bom!! - de pessoas estudando em universidades, porém um número absurdo - o que é ruim!! - de pessoas sem preparo para cargos em empresas privadas. Não falta oportunidade, falta mão de obra qualificada. continuar lendo

A sabedoria popular diria para o autor do texto que isso é "dor de cotovelo".

Einstein era funcionário público e, nem por isso, deixou de ser Einstein. Compreendo a crítica do autor do texto, mas não concordo integralmente. É possível ser funcionário público e continuar se qualificando e desenvolvendo novas habilidades importantes em qualquer profissional. Basta querer, correr atrás. Aliás, é um equivoco quem pensa que empreendedorismo não é interessante para o serviço público. Muito pelo contrário: a captação de jovens talentos, empreendedores ou "gênios" para o setor público possui íntima relação com o princípio da eficiência elencado no caput do art. 37 da CF/88. O concurso público é vantajoso também por fazer essa seleção dos mais aptos.

No mais, acredito que o setor privado deva valorizar mais os profissionais, não os tratando como simples peças substituíveis no jogo escroto do capitalismo selvagem comandado pelos empresários. continuar lendo

Possível é, só não é provável. Falou de Einstein, um ser humano totalmente "fora da curva". Essa é a exceção. continuar lendo

Eu prefiro seguir a rota dos seres "fora da curva" ao invés de espelhar-me na mediocridade dos que insistem em andar na linha. continuar lendo

O maior problema do serviço público é sua estrutura ortodoxa e rígida, regida e dominada por uma burocracia dos infernos. Sou a favor do fortalecimento do serviço público, que só é possível adotando o espírito do setor privado. continuar lendo

Murilo Wya Almeida, isso não é dor de "cotovelo", essa é a verdade!
Estamos com um PIB quase próximo de 0%, as empresas estão fechando as portas e mais pessoas estão tendo que depender de medidas populistas e assistencialistas do governo pra sobreviver pq não tem empregos, e aí eu te pergunto: Você acha q as empresas estão fechando as portas e pegando poucos salários pq quer?

Se a resposta for sim, você está errado, pois as empresas pagam pouco pq existe uma barreira, chamada ESTADO, que os impedem de progredir, seja essa barreira representada por autos impostos ou pela falta de retorno em incentivos do governo e acabam tendo que pagar duas vezes por uma mesma coisa.
Ao invés de ficar aumentando os salários de servidores públicos 3x mais que a média salarial brasileira (aumento este feito com os impostos pagos pelas empresas e assalariados) o governo deveria dar incentivos pra competitividade e estabilidade econômica e não agir como que as empresas e assalariados fossem gados para sustentar a máquina pública. continuar lendo

É ridículo comparar um gênio (Einstein) que contribuiu com a humanidade com um funcionário público parasita que presta o pior serviço público do mundo ao cidadão - quando presta. continuar lendo

Sr. Murilo, o citado cientista era pesquisador e professor universitário, contudo só foi funcionário público de 1901 a 1908 no escritório de patentes, 1908 e 1909 na universidade de Berna e entre 1914 e 1916 como diretor do Instituto Kaiser Guilherme de Física, com contrato que o desobrigava das funções burocráticas normais.
Suas pesquisas e suas aulas foram, quase sempre, patrocinadas por entidades privadas, nas quais ele se submetia a avaliações e ao estabelecimento de metas, coisas que nossos professores e pesquisadores, não aceitam.
Reconheço, contudo, que é o mercado que regula qual destino tomará os nossos jovens mais talentosos, e até os cotistas, fica com os melhores quem oferece mais, o problema esta em o que se faz com os melhores, nosso estado têm desperdiçado todo este talento.
Somente quando valorizarmos o mérito é que poderemos fazer algo de bom com o talento disponível. continuar lendo

Eu acreditaria no aproveitamento dos nossos gênios se no serviço público brasileiro houvesse a meritocracia como a "pedra filosofal" do funcionalismo público. continuar lendo

Concordo com o Murilo quanto à forma como o setor privado trata os trabalhadores, o que é um dos maiores motivos da busca pelo setor público. Quanto aos problemas na abertura e manutenção de empresas, é preciso prestar atenção no capital especulativo antes de atribuir todas as responsabilidades ao Estado. continuar lendo

Creio que não dá para comparar o caso de Einstein com os nossos brasileiros. Einstein era de outra época, de outro país, de outra realidade. continuar lendo

Infelizmente é verdade.
Sou Físico e conheço outros Físicos brasileiros geniais que poderiam ter tido um futuro brilhante no ramo das Ciências Exatas e Tecnológicas. Por causa desvalorização da carreira, acabaram optando por concursos.
Dos cinco que conheço que tomaram esse caminho, dois são Auditores da Receita Federal, dois são Auditores do TCU e um é Analista de Planejamento e Orçamento do MPOG. São excelentes cargos, mas fica a pergunta: será que vale apena jogar fora tanto conhecimento e tanto talento? Compensa trocar os sonhos por dinheiro?
Se o Brasil valorizasse e apoiasse mais a iniciativa privada e a pesquisa científica esse tipo de coisa não aconteceria. continuar lendo

Eu tenho um cliente que disse pra mim semana passada: "o empresário no Brasil é um herói, porque só muita coragem para enfrentar tamanha carga tributária, leis trabalhistas." continuar lendo

Eu acho a questão um tanto mais complicada.

Não somos, se comparados com EUA ou Alemanha, um país com grande demanda de mão de obra altamente qualificada. Há ainda a questão que, na média, a escolaridade do setor público é maior do que no setor privado. (dadas as características do nosso país, a maioria dos empregos gerados no setor privado não demandam tal grau de especialização).

Outro ponto importante nessa balança é a discrepância entre o serviço público e o privado que, atualmente, os salários são melhores no primeiro. Isso, sem dúvidas, somado à estabilidade, é um atrativo que o estado tem oferecido.

No entanto, acredito que esse frenesi por concurso se estabilize com o tempo. Uma vez que as vagas tenderão a diminuir com o tempo, a relação candidato/vaga e a relação esforço/aprovação tenderão a aumentar muito.

Acho que o equilíbrio dessa balança vai acontecer com o aumento do rendimento médio do setor privado, especialmente com o aumento do salário médio da mão de obra qualificada. Pois, o estado não poderá aumentar seu salário infinitamente (na verdade, acredito que os aumentos daqui pra frente serão bem controlados).

Dessa cultura de concursos, acho que o pior efeito que ela pode gerar é uma grande massa de pessoas com 30 anos ou mais sem experiência profissional que, quando a maré baixar, se verão obrigadas a "começar do zero" no setor privado.

Meu conselho para aqueles que estão "na onda de concursos" e têm medo de, no futuro, não conseguir uma vaga e ter que encarar o mercado é fazer um mix entre trabalho/estudo (não é fácil, e quem disse que seria?). Assim, se não der certo a tão almejada aprovação, a pessoa já estará inserida no mercado e terá adquirido experiências e habilidades típicas do setor.

Nessa onda toda de concursos, minha maior preocupação é com esse boom de faculdades de direito. Temos mais faculdades que o planeta inteiro! E, somente o estado de SP, tem mais faculdades que os EUA! Isso, sim, me preocupa. continuar lendo